Em 1853, a filha
dos Dufaux começou a apresentar inquietante desequilíbrio nervoso e a fazer
premonições. Por causa desse problema, seu pai procurou o célebre médico Cléver
De Maldigny.
Pelo relato do Sr. Dufaux, o médico disse
que Ermance parecia estar sofrendo de um novo distúrbio nervoso, que havia feito
diversas vítimas na América e que, agora, estava chegando à Europa. As vítimas
da doença entravam numa espécie de transe histérico e começavam a receber
hipotéticas mensagens do Além.
O médico aconselhou o Sr.
Dufaux a trazer Ermance a seu consultório, o mais rápido possível. Assim foi
feito. Alguns dias depois, a mocinha comparecia à consulta.
Maldigny colocou um lápis na mão da menina e pediu que
ela escrevesse o que lhe fosse impulsionado. Ermance começou a rir, gracejando,
mas, de súbito, seu braço tomou vida própria e começou a escrever sozinho. Ao
ver-se dominada por uma força estranha, Ermance assustou-se, largou o lápis e
não quis continuar a experiência.
Maldigny examinou o
papel e confirmou seu diagnóstico. Os pais de Ermance ficaram extremamente
preocupados. Como a família era famosa na corte, a notícia logo se espalhou em
Paris e Fontainebleau, chegando aos ouvidos do Marquês de Mirvile, famoso
estudioso do Magnetismo.
O Marquês visitou o castelo dos
Dufaux e pediu para examinar Ermance. Os pais aquiesceram, mas a mocinha teve
que ser convencida. Por fim, Ermance colocou-se em posição de escrever e Mirvile
perguntou ao invisível:
- Está presente o Espírito em que
penso? Em caso positivo, queira escrever seu nome por intermédio da garota.
A mão de Ermance começou a se mover e escreveu:
- Não, mas um de seus parentes remotos.
- Pode escrever seu nome?
- Prefiro
que meu nome venha diretamente à sua cabeça. Pense um
instante.
- São Luís, rei de França (1), primo do primeiro
nobre de minha família?
- Sim, eu
mesmo.
- Vossa Majestade pode dar-me um prova de que é
realmente o nosso grande rei?
- Ninguém nesta casa sabe
que você e seus parentes me consideram o Anjo da Guarda da família.
Se Maligny via o caso de Ermance como doença, o Marquês
também tinha suas explicações preconcebidas. Na sua opinião, ela apenas captava
as idéias e pensamentos presentes no ambiente. Isso na melhor das hipóteses. Na
pior, a jovem estava sendo intérprete do Diabo, pois, como católico, ele não
acreditava que os mortos pudessem se comunicar. Uma análise conclusiva deveria
ser feita pela Academia de Ciências de Paris.
O Sr.
Dufaux, no entanto, não levou o caso adiante. Embora também fosse católico, ele
preferiu acreditar que sua filha não era doente ou possessa, mas apenas uma
intermediária entre os vivos e os mortos. A família foi se acostumando com o
fato e a faculdade de Ermance passou a ser vista como uma coisa natural e
positiva.
Os contatos com São Luís passaram a ser
frequentes. Sob seu influxo, ela escreveu a autobiografia póstuma do rei
canonizado, intitulada "A história de Luís IX, ditada por ele mesmo". Em 1854,
esse texto foi publicado em livro, mas a Censura do Governo de Napoleão III
proibiu a sua distribuição. Os censores acharam que algumas passagens podiam ser
entendidas como críticas ao Imperador e à Igreja.
O
posicionamento favorável dos Dufaux ao neo-espiritualismo (spiritualisme) gerou
retaliações. Numa confissão, Ermance recusou-se a negar sua crença nos
Espíritos, atribuindo suas mensagens a Satanás, e foi proibida de comungar. A
Imperatriz também esfriou seu relacionamento com a família. No entanto, o
Imperador Napoleão III ficou curioso e pediu para conhecer a Srta. Dufaux.
Ela foi recepcionada no Palácio de Fontainebleau e
recebeu uma mensagem de Napoleão Bonaparte para o sobrinho. A mensagem respondia
a uma pergunta mental de Luís Napoleão e seu estilo correspondia exatamente ao
de Bonaparte.
Com o tempo, os Espíritos também começaram
a falar por Ermance. Em 1855, com 14 anos, Ermance publica seu segundo livro
"spiritualiste" (na época, não existiam os termos espírita, mediunidade, etc). O
primeiro a ser distribuído e vendido: "A história de Joana D'Arc, ditada por ela
mesma" (Editora Meluu, Paris).
Segundo Canuto Abreu, a
família Dufaux conheceu Allan Kardec na noite do dia 18 de abril de 1857. O
Codificador teria dado uma pequena recepção em seu apartamento e os Dufaux foram
levados por Madame Planemaison, grande amiga do professor lionês.
No final da reunião, Ermance recebeu uma belíssima
mensagem de São Luís, que, a partir dali, tornaria-se uma espécie de supervisor
espiritual dos trabalhos do Mestre. Segundo o ex-rei, Ermance, assim como
Kardec, era uma druidesa reencarnada. Os laços entre os dois se estreitaram e
ela se tornou a principal médium das reuniões domésticas do Prof. Rivail.
No final de 1857, Kardec teve a idéia de publicar um
periódico espírita e quis ouvir a opinião dos
guias espirituais. Ermance foi a médium escolhida e,
através dela, um Espírito deu várias e
ótimas orientações ao Mestre de Lion. O
órgão ganhou o nome de "Revista Espírita" e foi
lançado em Janeiro do ano seguinte.
Como o apartamento de Allan
Kardec ficou pequeno para o grande número de frequentadores da sua reunião,
alguns dos participantes decidiram alugar um local maior.
Para isso, porém, precisavam de uma autorização legal. O
Sr. Dufaux encarregou-se de obter o aval das autoridades, conseguindo em quinze
dias o que, normalmente, levaria três meses. Conquistada a liberação, o
Codificador e seus discípulos fundaram a Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas, em Abril de 1858. Ermance foi uma das sócias fundadoras.
Durante o ano de 1858, Ermance recebeu mais duas
autobiografias mediúnicas. Desta vez, os autores foram os reis franceses Luís XI
e Carlos VIII. O Codificador elogiou o trabalho da Srta. Dufaux (2) e
transcreveu trechos das "Confissões de Luís XI" na Revista Espírita(3). Nesse
mesmo ano, Kardec divulgou três mensagens psicografadas pela jovem sensitiva
(4). Não temos notícia sobre a possível publicação das memórias de Carlos VIII.
Canuto Abreu revelou que Rivail a utilizou como médium na
revisão da 2ª edição de O Livro dos Espíritos.
Em 1859,
Ermance não é mais citada como membro da SPEE nas páginas do mensário
kardeciano. Isso leva-nos a crer que ela teria saído da Sociedade. Outro indício
dessa suposição é que São Luís passou a se comunicar através de outros
sensitivos (Sr. Rose, Sr. Collin, Sra. Costel e Srta. Huet). Não há, igualmente,
registros da continuidade do seu trabalho em outros
grupos.
O que teria acontecido com Ermance? Teria casado e
deixado a militância, como Ruth Japhet e as meninas Baudin? Teria se
desentendido com Kardec? Teria mudado da França? Teria desanimado com o
Espiritismo? São perguntas que só ela poderia responder. Seja como for, o
Codificador continuou a divulgar seu trabalho. Em 1860, ele noticiou a reedição
de "A história de Joana D'Arc ditada por ela mesma", pela Livraria Lendoyen de
Paris.
Em 1861, enviou vários exemplares desse livro,
junto com suas obras, para o editor francês Maurice Lachâtre, que se encontrava
exilado em Barcelona, Espanha. O objetivo era a divulgação do Espiritismo em
solo espanhol. Esses volumes acabaram confiscados e queimados em praça pública
pela Igreja Católica no famoso Auto-de-fé de Barcelona.
"A história de Luís IX ditada por ele mesmo", foi
liberada pela Censura e finalmente publicada pela revista La Verité de Paris em
1864. No início de 1997, a editora brasileira Edições LFU traduziu "A história
de Joana D'Arc" para o português.
NOTAS:
(1) Rei francês, filho de Luís VIII e
Branca de Castela, nascido em 1215, coroado em 1226 e morto em 1270. Luís IX
teve um reinado bastante conturbado. Até 1236 enfrentou a Revolta dos Vassalos e
a Guerra dos Albigenses. Venceu duas batalhas contra os ingleses em 1242. Em
1249, organizou uma Cruzada, foi vencido e aprisionado. Resgatado, ficou na
Palestina até 1252, quando voltou à França. Empreendeu mais uma Cruzada e morreu
de peste ao desembarcar em Tunis. Foi canonizado pela Igreja em 1297.
(2) Página 30 do Volume 1858,
EDICEL.
(3) Páginas 73, 148 e 175,
ibidem.
(4) Páginas 137, 167 e 317,
ibidem.
BIBLIOGRAFIA
ABREU, 1992.
KARDEC,
1993.
KARDEC,
_____________
Algumas informações adicionais sobre Ermance Dufaux
(GEAE)
Pesquisando na Internet verificamos que
Ermance Dufaux publicou livros na década de 1880 que foram citados em obras de
outros autores e traduzidos para outras linguas. Edições impressas ainda existem
a venda em sites de livros raros e versões digitalizadas podem ser encontradas
no site da Biblioteca Nacional da França.
Algumas
das referências que encontramos:
1) No site da
Biblioteca do Congresso Americano há uma página dedicada a preservação da
memória americana com a digitalização de obras raras (http://memory.loc.gov/ammem/index.html). Encontramos nesse site
um livro de 1909 - Traité Pratique et Thèorique de La Danse
(Tratado Teórico e Prático da Dança, BOURGEOIS, 1909)
- que traz na sua bibliografia a indicação de duas obras em nome
de Ermance Dufaux. Não há dadas de publicação indicadas:
- Le savoir-vivre dans la vie ordinaire et
les cérémonies civiles et religieuses, par Ermance Dufaux. 1 vol. in-18 (O saber
viver na vida cotidiana e nas cerimônias civis e religiosas).
- L'enfant, hygiène et soins médicaux pour
le premier âge; par Ermance Dufaux de la Jonchère. Nombreuses gravures. 1 vol.
in-18 (A criança, higiene e cuidados médicos na primeira idade).
- La vie du vaillant bertrand du guesclin, de d'Aprés les Chanson de
Geste du Trouvère, Tx Rajeuni par E. Dufaux de la Jonchere.
Description: dos léger , cartonnage perca. décoré édition tranche dorées,
illustration de Tofani in et hors texte Garnier , 1885. (A vida do Valoroso
Bertrand du Guesclin, conforme as canções de gesta dos trovadores, em prosa
contemporânea por E. Dufaux de la Jonchere).
3) A
página do DICTIONNAIRE DES AUTEURS / ECRIVAINS
traz a seguinte relação de obras de Ermance Dufaux:
- Auteur: DUFAUX DE LA JONCHERE ERMANCE
Livre:
LE SAVOIR-VIVRE DANS LA VIE ORDINAIRE ET DANS LES CEREMONIES CIVILES ET
RELIGIEUSES
Edité par Garnier freres - Paris en s.d.(ca 1883)
- Auteur: DUFAUX DE LA JONCHERE (MLLE
E.)
Livre: LA VIE DU VAILLANT BERTRAND DU GUESCLIN, D'APRES LA
CHANSON DE GESTE DU TROUVERE CUVELIER ET LA CHRONIQUE EN PROSE CONTEMPORAINE.
Edité par Garnier - Paris en 1885
- Auteur: DUFAUX ERMANCE
Livre:
HISTOIRE DE JEANNE D'ARC PAR ELLE MEME
Edité par Philman - Paris le
25/09/2000
- Auteur: DUFAUX ERMANCE
Livre:
LE SAVOIR-FAIRE DANS LA VIE ORDINAIRE ET DANS LES CEREMONIES CIVILES ET
RELIGIEUSES
Paris en 1883
4)
O livro de Ermance Dufaux sobre higiene e
cuidados na infância teve uma tradução para o espanhol em 1888. Esta informação
foi encontrada em um site de leilões: Durán Sebastas de Artes (acesso 25/09/2006):
- DUFAUX DE LA JONCHERE, Erm.- "EL NIÑO Higiene y cuidados maternales
dela infancia PARA USO DE LAS MADRES JOVENES Y DE LAS NODRIZAS... Versión
castellana anotada y arreglada por D. Gonzalo de Lorenzo". París, Garnier
Hermanos. 1888. 8º, tela edit., estamp. 475 pgs. Figuras en texto.
5) No site Gallica da Biblioteca Nacional da França está disponível para
consulta e download o livro Le Saivoir-Vivre e no seu início há uma carta datada
de 1883.
6) No mesmo site há outro livro dela de 1884:
- Ce que les maîtres et les domestiques doivent savoir [Texte imprimé]
/ par Mlle E. Dufaux de la Jonchère (O que os
patrões e os criados domésticos devem saber). Paris: Garnier frères,
1884. 461-36
p. Sujet: Employeur et employé (droit) -- 19e
siècle.