Esta poesia, escrita em sua juventude, foi-lhe relembrada,
muitos anos depois, pelo espírito do amigo citado.
Amalia não chegou a casar-se e aos
vinte cinco anos, com o falecimento de sua mãe, começou a
fase mais difícil de sua existência. Os recursos que sua mãe
dispunha, praticamente se esgotaram no tratamento de sua saúde e
as relações com seus familiares - parentes do pai - não
eram das melhores. Assim, além da solidão, começaram
para Amalia dias de grande penuria. As soluções propostas
por seus familiares lhe foram impossíveis de aceitar: entrada no convento
ou casamento arranjado com um senhor de muito mais idade, em boa situação
financeira.
Assim ela se dirigiu a Madrid, capital do país,
na esperança de encontrar melhores condições de sobreviver,
com suas poesias e com um trabalho modesto. Suas dificuldades foram imensas,
até fome passou e teve de recorrer a instituições
de caridade, pois raríssimas as possibilidades de trabalho honrado para
uma moça pobre e desamparada. Nesse período, no desespero
da fome e da solidão, pensa até em matar-se.
Em uma noite de grande amargura, em que tinha perdido até mesmo
a noção de Deus e debatia-se na dúvida do destino de sua
mãe, esta lhe aparece e causa-lhe viva impressão.
Impressionada pela visão de sua mãe,
recorda-se da religião e busca reconforto nas igrejas. É
porém junto a uma igreja luterana que encontra o apoio que procura.
A palavra de seus pastores e a convicção de seus fiéis
lhe trazem de novo a fé e o consolo da confiança em Jesus.
O esforço de escrever versos, dos pequenos
trabalhos de costura, unidos a difícil condição em que vivia,
lhe pioraram significativamente a vista e somente graças ao tratamento
feito por um médico homeopata, salvou-se da cegueira. Foi também
este médico que lhe fala pela primeira vez de uns "loucos", adeptos
de uma novidade chamada Espiritismo, e lhe empresta um exemplar do jornal
espírita "El Critério". O curioso é que o médico
era materialista e lhe fala do Espiritismo para consolá-la de suas aflições.
É lendo um artigo deste jornal - reproduzido
nas suas memórias - que ela se convence da verdade do Espiritismo
e busca mais informações. Estuda o que lhe chega as mãos
sobre o Espiritismo e para poder ter acesso as revistas espíritas,
começa a escrever artigos para elas. O primeiro de seus trabalhos
espíritas é uma poesia para o jornal "El Critério",
que embora não tenha sido publicada, lhe valeu uma carta do editor
- Visconde de Torres Solanot - com um livro espírita de sua autoria
(Preliminares del Espiritismo).
É no periódico espírita "La
Revelación", da cidade de Alicante, que pela primeira vez sai publicado
um texto de Amalia Domingo Soler, uma poesia. Seu primeiro artigo doutrinário,
"La Fe Espiritista" sai pelo "El Critério", em seu número
9, de 1872. Seus artigos chamaram a atenção e, aos poucos,
integra-se ao movimento espírita espanhol, participando de reuniões.
Foi em 31 de março de 1875 - aniversário
da desencarnação de Allan Kardec - que no salão da
Sociedad Espiritista Española, diante dos membros desta sociedade,
Amalia lê sua poesia "A la Memoria de Allan Kardec" e - como registra
em suas memórias - passa a fazer parte das fileiras dos propagandistas
da Doutrina Espírita.
Grande escritora, com textos que falam tanto ao coração
como a razão, e de espírito tão extraordinário
como seu talento com as letras, conquistou totalmente as simpatias dos
espíritas espanhóis. Fernandes Colavida a presenteia com
a coleção das obras de Allan Kardec. Os espíritas
de Alicante a convidam a ficar junto a eles, sob sua proteção,
dedicando-se exclusivamente a divulgação da Doutrina. Junto
aos espíritas de Murcia permanece 4 meses recuperando-se de uma
enfermidade.
Amalia, firmemente acreditando que seria errado viver
do Espiritismo, continua a trabalhar de dia e escrever de noite. Permance
em Madrid até que se muda para Barcelona, em 10 de agosto de 1876,
convidada pelo grupo espírita "Circulo La Buena Nueva" e com a esperança
de encontrar melhores condições de trabalho na capital Catalã,
já então cidade empreendedora e de grande atividade econômica.
Três meses após chegar a Barcelona,
novamente os problemas de visão voltaram a atormentar Amalia e quase
cega encontrou amparo na família de Luís Lach, presidente do Circulo.
Lhe deram abrigo e condições de dedicar-se integralmente
ao Espiritismo. Nas reuniões do Circulo, Amalia veio a conhecer
Miguel Vives, médium extraordinário, através do qual
recebeu mensagens de sua mãe. Também entre os espíritas
barcelonenses conheceu o médium sonâmbulo Eudaldo, que se
tornou seu colaborador e através do qual recebeu grande número
de mensagens, incluse as que foram reunidas no livro "Memórias del
Padre German". O Padre Germano, guia espiritual de Amalia, se apresentou
pela primeira vez em 9 de maio de 1879 e a publicação de
suas memórias foi feita em partes a partir de 29 de abril de 1880.
Além de publicar artigos em periódicos
espíritas, Amalia também refutou ataques ao Espiritismo em
jornais como a "Gaceta de Cataluña", ficando célebre sua
polêmica com o orador católico Vicente de Manterola. Em 1878,
Vicente iniciou uma série de conferências combatendo o Espiritismo,
as quais Amalia assistia e respondia em artigos na "Gaceta de Cataluña".
O mesmo orador chegou a publicar, em 1879, um livro intitulado "El Satanismo,
o sea la Catédra de Satanás, combatida desde la Cátedra
del Espíritu Santo - Refutación de los errores de la Escuela
Espiritista". Este foi refutado em uma série de 46 artigos de Amalia,
reunidos posteriormente no livro "El Espiritismo refutando los errores
del Catolicismo".
Em 22 de maio de 1879 sai o primeiro número
do periódico "La Luz del Porvenir", dirigido por Amalia Domingo
Soler. O periódico surgiu devido a insistência de Luís
Lach e do editor Juan Torrents que convenceram-na a aceitar a tarefa de
criar um periódico direcionado a "mulher espiritista". No primeiro
número saiu o artigo "La idea de Dios" que foi denunciado as autoridades
e provocou a suspensão do periódico por 42 semanas (voltou
a ser publicado antes devido a um decreto do rei Alfonso XII). Durante
a suspensão do periódico, foi publicado um substituto "El
Eco de la Verdad", que chegou a ser denunciado por outro artigo ("Los Obreros"
de Cándida Sanz) e absolvido.
Importante notar que estas denúncias - embora uma
reação de setores religiosos que se sentiam ameaçados
pelo Espiritismo - não são tão difíceis de se compreender,
se considerarmos o clima geral da época de Alfonso XII. Este rei
subiu ao trono com 17 anos em 29 de dezembro de 1874, em meio a uma crise
politica que levou a abdicação de sua mãe, a rainha
Isabel II. A Espanha vivia um clima de extremismos, com o governo
tendo que defender-se tanto contra os "Carlistas", que retomam a guerra
civil, quanto contra os republicanos que querem o fim da monarquia. Reformas
liberais necessàrias a modernização do pais, misturavam-se
com manifestos militares, crises politícas e novas guerras na África.
O Catolicismo é a religião oficial do Estado e procura reagir
com todas as suas forças as mudanças liberalizantes que podem
comprometer-lhe essa posição.
O periódico "La Luz del Porvenir" foi publicado
até 1899 e muitos dos artigos de Amalia Domingos Soler publicados
durante este período - incluindo "La Idea de Dios" - foram, a partir
de 1972, reunidos por Salvador Sanchís Serra nos livros "La
Luz del Porvenir" e "La Luz del Camino", distribuídos gratuitamente
por ele e pelo grupo espírita "La Luz del Camino" de Orihuela, Alicante.
As memórias de Amalia Domingo Soler foram
escritas em 1891, sob orientação do Padre Germano. Até
aquela data ela tinha escrito 1286 artigos, que foram publicados em periódicos
na Espanha e no exterior: "El Critério" e "El Espiritismo", de Madri;
"La Gaceta de Cataluña", "La Luz del Porvenir" e a "Revista de Estudos
Psicológicos" de Barcelona;" La Revelación", de Alicante;
"El Espiritismo", de Sevilha; "La Ilustración Espirita", do México;"
La Ley del Amor", de Mérida de Yucatán; "La Revista Espiritista",
de Montevidéu; "La Constancia", de Buenos Aires; os" Annali dello
Spiritismo" na Italia;" El Buen Sentido", de Lérida e outros dos
quais não há mais registro.
Em 29 de abril de 1909, de Barcelona, Amalia retornou
ao plano espiritual, o que não significa que se afastou de seu labor
em pról do Espiritismo. Em 10 de julho de 1912, por intermédio
da médium Maria - que colabou com ela em vida, substituindo Eudaldo
- completou suas memórias e, recentemente, nas viagens do médium
Divaldo Pereira Franco à Espanha, tem transmitido mensagens de orientação
e encorajamento aos espíritas espanhóis.
O Espiritismo na Espanha continuaria a progredir
até as vespéras da Guerra Civil de 1936-1939, quando o conflito
latente desde a regência de Maria Cristina entre uma Espanha que
queria ser moderna e uma que sonhava com o passado, transformou-se em uma
sangrenta guerra civil. As proporções do conflito, se hoje
não causam espanto, é porque foram eclipsadas pela II Guerra
Mundial, imediatamente posterior. Ao final desta guerra civil, a Espanha
mergulhou nos 40 anos da ditadura do General Franco, que tudo fez para
abafar qualquer idéia que não se enquadrasse na visão
de mundo de seu regime. O Espiritismo, perseguido e jogado na clandestinidade,
porém voltou a surgir imediatamente ao fim do regime franquista,
em uma Espanha nova, liderada por politicos mais maduros e por um rei esclarecido
e humano, Juan Carlos I.
O balanço da obra de Amalia Domingo Soler
é dificil de se fazer, pois os seus frutos ainda continuam surgindo.
O movimento espírita espanhol do final do século XIX, obra
de Amalia e de outros grandes pioneiros, como Fernandes Colavida e Miguel
Vives y Vives, abrigou o primeiro congresso espírita internacional
em 1888, influenciou os movimentos nascentes nos vários países
de língua espanhola da América Latina e - como precedente histórico
- é a base para o atual renascimento do espiritismo espanhol.
Seus artigos são hoje, como foram ontem, exposições
claras e diretas do Espiritismo. Fieis intérpretes da Doutrina Espírita
codificada por Allan Kardec. Lidos e veiculados pelos meios de comunicação
modernos, entre eles a Internet.
Bibliografia