| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 2, CAP. 6 |
238. As percepções e os conhecimentos dos Espíritos são indefinidos; em uma
palavra, sabem eles todas as coisas?
-- Quanto mais se aproximam da perfeição mais sabem: se são superiores,
sabem muito; os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes em todos os
assuntos.
239. Os Espíritos conhecem o princípio das coisas?
-- Conforme a sua elevação e a sua pureza. Os Espíritos inferiores não
sabem mais do que os homens.
240. Os Espíritos compreendem a duração como nós?
-- Não; e isso faz que nem sempre nos compreendais, quando se trata de
fixar datas ou épocas.
Os Espíritos vivem fora do tempo, tal como o compreendemos; a duração, para eles, praticamente não existe, e os séculos, tão longos para nós, não são aos seus olhos mais do que instantes que desaparecem na eternidade, da mesma maneira que as desigualdades do solo se apagam e desaparecem para aquele que se eleva no espaço.241. Os Espíritos fazem do presente uma idéia mais precisa e mais justa do que nós?
242. Como têm os Espíritos o conhecimento do passado? Esse conhecimento é para
eles limitado?
-- O passado quando dele nos ocupamos, é um presente, precisamente como te
lembras de uma coisa que te impressionou durante o teu exílio. Entretanto, como
não temos mais o véu material que obscurece a tua inteligência, lembramo-nos
das coisas que desapareceram para ti. Mas nem tudo os Espíritos conhecem, a
começar pela sua própria criação.
243. Os Espíritos conhecem o futuro?
-- Isso ainda depende da sua perfeição. Quase sempre, nada mais fazem do
que entrevê-lo, mas nem sempre têm a permissão de o revelar; quando o vêem, ele
lhes parece presente. O Espírito vê o futuro mais claramente à medida que se
aproxima de Deus. Depois da morte, a alma vê e abarca de relance as suas
migrações passadas, mas não pode ver o que Deus lhe prepara. Para isso é
necessário que esteja integrada nele, depois de muitas existências.
243-a. Os Espíritos chegados à perfeição absoluta têm completo conhecimento do
futuro?
-- Completo não é o termo, porque Deus é o único e soberano Senhor, e
ninguém o pode igualar.
244. Os Espíritos vêem a Deus?
-- Somente os Espíritos superiores o vêem e compreendem; os Espíritos
inferiores o sentem e adivinham.
244-a. Quando um Espírito inferior diz que Deus lhe proíbe ou permite uma
coisa, como sabe que a ordem vem d'Ele?
-- Ele não vê a Deus, mas sente a sua soberania, e quando uma coisa não
deve ser feita ou uma palavra não deve ser dita, ele o sente como uma intuição,
uma advertência invisível que o inibe de fazê-lo. Vós mesmos tendes
pressentimentos que são para vós como advertências secretas, para fazerdes ou
não alguma coisa. O mesmo acontece conosco, mas em grau superior, pois
compreendes que, sendo mais sutil do que a vossa a essência dos Espíritos,
podemos receber mais facilmente as advertências divinas.
244-b. A ordem é transmitida diretamente por Deus, ou por intermédio de outros
Espíritos?
-- Não lhe chega diretamente de Deus, pois para comunicar-se com ele é
preciso merecê-lo. Deus transmite as suas ordens pelos Espíritos que estão mais
elevados em perfeição e instrução.
245. A vista dos Espíritos é circunscrita como nos seres corpóreos?
-- Não, é uma faculdade geral.
246. Os Espíritos precisam de luz para ver?
-- Vêem pela luz própria, sem necessidade de luz exterior; para eles não há
trevas, a não ser aquelas em que podem encontrar-se por expiação.
247. Os Espíritos precisam transportar-se para ver em dois lugares diferentes?
Podem ver ao mesmo tempo num e noutro hemisfério do globo?
-- Como o Espírito se transporta com a rapidez do pensamento, podemos dizer
que vê por toda parte de uma só vez. Seu pensamento pode irradiar e dirigir-se
para muitos pontos ao mesmo tempo. Mas essa faculdade depende da sua pureza:
quanto menos puro ele for, mais limitada é a sua vista; somente os Espíritos
superiores podem ter visão de conjunto.
A faculdade de ver dos Espíritos, inerente à sua natureza, difunde-se por todo o seu ser, como a luz num corpo luminoso. E uma espécie de lucidez universal, que se estende a tudo, envolve simultaneamente o espaço, o tempo e as coisas, e para a qual não há trevas nem obstáculos materiais. Compreendo-se que assim deve ser, pois no homem a vista funciona através de um órgão que recebe a luz, e sem luz ele fica na obscuridade. Mas, nos Espíritos, a faculdade de ver sendo um atributo próprio que independe de qualquer agente exterior, a vista não precisa de luz. (Ver Ubiqüidade item 92).248. O Espírito vê as coisas tão distintamente como nós?
249. O Espírito percebe os sons?
-- Sim, e percebe até mesmo os que os vossos sentidos obtusos não podem
perceber.
249-a. A faculdade de ouvir, como a de ver, está em todo o seu ser?
-- Todas as percepções são atributos do Espírito e fazem parte do seu ser.
Quando ele se reveste do corpo material, eles se manifestam pelos meios
orgânicos; mas, no estado de liberdade, não estão mais localizadas.
250. Sendo as percepções atributos do próprio Espírito, ele pode deixar de
usá-las?
-- O Espírito só vê e ouve o que ele quiser. Isto de uma maneira geral, e
sobretudo para os Espíritos elevados, porque os imperfeitos ouvem e vêem
freqüentemente, queiram ou não, aquilo que pode ser útil ao seu
melhoramento.
251. Os Espíritos são sensíveis à música?
-- Queres falar da vossa música? O que é ela perante a música celeste, essa
harmonia da qual ninguém na Terra pode ter idéia? Uma é para a outra o que o
canto do selvagem é para a suave melodia: Não obstante os Espíritos vulgares
podem provar um certo prazer ao ouvir a vossa música porque não estão ainda
capazes de compreender outra mais sublime. A música tem, para os Espíritos,
encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas muito desenvolvidas.
Refiro-me à música celeste, que é tudo quanto a imaginação espiritual pode
conceber de mais belo e mais suave.
252. Os Espíritos são sensíveis às belezas naturais?
-- As belezas naturais dos vários globos são tão diversas que estamos longe
de as conhecer. Sim, são sensíveis a elas, segundo as suas aptidões para as
apreciar e compreender. Para os Espíritos elevados há belezas de conjunto,
diante das quais se apagam, por assim dizer, as belezas dos detalhes.
253. Os Espíritos experimentam as nossas necessidades e os nossos sofrimentos
físicos?
-- Eles os conhecem, porque os sofreram, mas não os experimentam
materialmente como vós, porque são Espíritos.
254. Os Espíritos sentem fadiga e necessidade de repouso?
-- Não podem sentir a fadiga como a entendeis, e portanto não necessitam do
repouso corporal, pois não possuem órgãos em que as forças tenham de ser
restauradas. Mas o Espírito repousa, no sentido de não permanecer numa
atividade constante. Ele não age de maneira material, porque a sua ação é toda
intelectual e o seu repouso é todo moral. Há momentos em que o seu pensamento
diminui de atividade e não se dirige a um objeto determinado; este é o
verdadeiro repouso, mas não se pode compará-lo ao do corpo. A espécie de fadiga
que os Espíritos podem provar está na razão da sua inferioridade, pois quanto
mais se elevam, de menos repouso necessitam.
255. Quando um Espírito diz que sofre, de que natureza é o seu sofrimento?
-- Angústias morais, que o torturam mais dolorosamente que os sofrimentos
físicos.
256. Como alguns Espíritos se queixam de frio ou calor?
-- Lembrança do que sofreram durante a vida, e algumas vezes tão penosa
como a própria realidade. Freqüentemente é uma comparação que fazem, para
exprimirem a sua situação. Quando se lembram do corpo experimentam uma espécie
de impressão, como quando se tira uma capa e algum tempo depois ainda se pensa
estar com ela.
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