| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 2, CAP. 6 |
Como o homem que, atingindo a idade da razão, ri das suas loucuras da juventude, ou das suas puerilidades da sua infância.305. A lembrança da existência corpórea se apresenta ao Espírito de maneira completa e inopinada, após a morte?
306. O Espírito se lembra detalhadamente de todos os acontecimentos de sua
vida; abrangendo o conjunto, num golpe de vista retrospectivo?
-- Lembra-se das coisas na razão das conseqüências que acarretam para a sua
situação de Espírito. Mas compreendes que há circunstâncias às quais ele não
atribui nenhuma importância, e que nem mesmo procura recordar.
306-a. Poderia lembrá-las, se o quisesse?
-- Pode lembrar-se dos detalhes e dos incidentes mais minuciosos, seja de
acontecimentos, seja mesmo de seus pensamentos. Mas quando isso não tem
utilidade ele não o faz.
306-b. Entrevê a finalidade da vida terrestre, com relação à vida futura?
-- Seguramente que a vê e compreende, muito melhor do que quando vivia no
corpo. Compreende a necessidade de purificação para chegar ao infinito, e sabe
que a cada existência se livra de algumas impurezas.
307. De que maneira a vida passada se desenrola na memória do Espírito? Por um
esforço da sua imaginação, ou como um quadro que ele tenha ante os olhos?
-- De uma e outra forma. Todos os atos que tenham interesse para a sua
lembrança são para ele como se estivessem presentes: os outros ficam mais ou
menos no fundo da memória, ou completamente esquecidos. Quanto mais
desmaterializado estiver, menos importância atribui às coisas materiais. Fazes
muitas vezes a evocação de um Espírito errante, que acabou de deixar a Terra e
não se lembra dos nomes das pessoas que amava, nem dos detalhes que para ti
parecem importantes; é que pouco lhe interessam, e caem no esquecimento. Aquilo
de que ele se lembra muito bem são os fatos principais, que o ajudam a
progredir.
308. O Espírito se lembra de todas as existências que precederam a que acabou
de deixar?
-- Todo o seu passado se desenrola diante dele, como as etapas de um
caminho que o viajante percorreu. Mas, como já dissemos, ele não se lembra de
maneira absoluta, de todos os atos, recordando-os apenas na razão da influência
que tenham sobre o seu estado presente. Quanto às primeiras existências, as que
se podem considerar como a infância do Espírito, perdem-se no vazio e
desaparecem na noite do esquecimento.
309. Como o Espírito considera o corpo que acabou de deixar?
-- Como uma veste imprópria, que o incomodava, e da qual se sente feliz por
se ter desembaraçado.
309-a. Que sentimento experimenta à vista do seu corpo em decomposição?
-- Quase sempre o de indiferença, como por uma coisa a que não dá mais
importância.
310. Ao fim de um certo lapso de tempo, o Espírito reconhece os ossos ou outras
coisas que lhe tenham pertencido?
-- Algumas vezes. Isso depende da maneira mais ou menos elevada pela qual
considere as coisas terrestres.
311. O respeito que se tem pelas coisas materiais que os Espíritos deixaram
atrai a sua atenção para esses objetos, e eles consideram esse respeito com
prazer?
-- O Espírito se sente sempre feliz de ser lembrado. As coisas que dele
conservamos avivam em nós a sua lembrança, mas é o pensamento o que o atrai
para vós, e não os objetos.
312. Os Espíritos conservam a lembrança dos sofrimentos que suportaram durante
sua última existência corpórea?
-- Freqüentemente a conservam, e essa lembrança os faz melhor avaliar a
felicidade que podem desfrutar como Espíritos.
313. O homem que foi feliz neste mundo lastima os gozos que perdeu, ao deixar a
Terra?
-- Somente os Espíritos inferiores podem lastimar os gozos que correspondem
à impureza de sua natureza, e que eles expiam pelo sofrimento. Para os
Espíritos elevados, a felicidade eterna é mil vezes preferível aos prazeres
efêmeros da Terra.
Como o adulto que desprezou o que constituía as delícias da sua infância.314. Aquele que iniciou grandes trabalhos com uma finalidade útil e que os vê interrompidos pela morte, lamenta tê-los deixado por acabar?
315. Aquele que deixou trabalhos de arte ou de literatura, conserva pelas suas
obras o amor que tinha durante a vida?
-- Segundo sua elevação, julga-as de outra maneira e freqüentemente reprova
o que mais admirava.
316. O Espírito se interessa ainda pelos trabalhos que se fazem na Terra, pelo
progresso das artes e das ciências?
-- Isso depende de sua elevação ou da missão que possa ter a cumprir.
Aquilo que vos parece magnífico é freqüentemente bem pouca coisa para certos
Espíritos, que o admiram como o sábio admira a obra de um escolar. Eles
examinam o que pode provar a elevação dos Espíritos encarnados e seus
progressos.
317. Os Espíritos conservam, depois da morte, o amor da pátria?
-- E sempre o mesmo princípio: para os Espíritos elevados, a pátria é o
Universo; na Terra, é aquela em que possuem maior número de pessoas
simpáticas.
A situação dos Espíritos e sua maneira de ver as coisas variam ao infinito, na razão do grau de seu desenvolvimento moral e intelectual. Os Espíritos de uma ordem elevada geralmente só fazem na Terra estações de curta duração. Tudo quanto aqui se faz é tão mesquinho, em comparação com as grandezas do infinito; as coisas a que os homens atribuem a maior importância são tão pueris aos seus olhos, que eles encontram poucos atrativos neste mundo, a menos que tenham sido chamados a fim de concorrer para o progresso da humanidade. Os Espíritos de uma ordem intermédia passam mais freqüentemente por aqui, embora considerem as coisas de maneira mais elevada do que durante a encarnação. Os Espíritos vulgares são de alguma maneira os que aqui permanecem constituindo a massa da população ambiente do mundo invisível. Conservam, com pouca diferença as mesmas idéias, os mesmos gostos e as mesmas tendências que tinham no seu envoltório corporal. Intrometem-se nas nossas reuniões, nos nossos negócios, nas nossas diversões tomando parte mais ou menos ativa, segundo o seu caráter. Não podendo satisfazer as suas paixões. Gozam com os que a elas se entregem, e as excitam nessas pessoas[23]. Encontramos entre eles alguns mais sérios, que vêem e observam para se instruir e aperfeiçoar.318. As idéias dos Espíritos se modificam na vida de Espírito?
319. Desde que o Espírito já viveu a vida espírita, antes da sua encarnação, de
onde vem o seu espanto ao reentrar no mundo dos Espíritos?
-- Esse é apenas o efeito do primeiro momento e da perturbação que se segue
ao despertar. Mais tarde, ele reconhece perfeitamente o seu estado, à medida
que lhe volta a lembrança do passado e que se desfaz a impressão da vida
terrestre. (Ver o item 163 e seguintes).
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