| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 3, CAP. 2 |
659. Qual o caráter geral da prece?
-- A prece é um ato de adoração. Fazer preces a Deus é pensar nEle,
aproximar-se dEle, pôr-se em comunicação com Ele. Pela prece podemos fazer três
coisas: louvar, pedir e agradecer.
660. A prece torna o homem melhor?
-- Sim, porque aquele que faz preces com fervor e confiança se torna mais
forte contra as tentações do mal, e Deus lhe envia bons Espíritos para o
assistir. É um socorro jamais recusado, quando o pedimos com sinceridade.
660-a. Como se explica que certas pessoas que oram muito sejam, apesar disso,
de muito mau caráter, ciumentas, invejosas, implicantes, faltas de benevolência
e de indulgência: que sejam até mesmo viciosas?
-- O essencial não é orar muito, mas orar bem. Essas pessoas julgam que
todo o mérito está na extensão da prece e fecham os olhos para os seus próprios
defeitos. A prece é para elas uma ocupação, um emprego do tempo, mas não um
estudo de si mesmas. Não é o remédio que é ineficaz, neste caso, mas a
maneira de aplicá-lo.
661. Pode-se pedir eficazmente a Deus o perdão das faltas?
-- Deus sabe discernir o bem e o mal: a prece não oculta as faltas. Aquele
que pede a Deus o perdão de suas faltas não o obtém se não mudar de conduta. As
boas ações são a melhor prece, porque os atos valem mais do que as
palavras.
662. Pode-se orar utilmente pelos outros?
-- O Espírito daquele que ora está agindo pela vontade de fazer o bem. Pela
prece, atrai a ele os bons Espíritos que se associam ao bem que deseja
fazer.
Possuímos em nós mesmos, pelo pensamento e a vontade, um poder de ação que se estende muito além dos limites de nossa esfera corpórea. A prece por outros é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar os bons Espíritos em auxílio daquele por quem pedimos, a fim de lhe sugerirem bons pensamentos e lhe darem a força necessária para o corpo e a alma. Mas ainda nesse caso a prece do coração é tudo e a dos lábios não é nada.663. As preces que fazemos por nós mesmos podem modificar a natureza das nossas provas e desviar-lhes o curso?
664. É inútil orar pelos mortos e pelos Espíritos sofredores, e nesse caso como
podem as nossas preces lhes proporcionar consolo e abreviar os sofrimentos? Têm
elas o poder de fazer dobrar-se a justiça de Deus?
-- A prece não pode ter o efeito de mudar os desígnios de Deus, mas a alma
pela qual se ora experimenta alívio, porque é um testemunho de interesse que se
lhe dá e porque o infeliz é sempre consolado, quando encontra almas caridosas
que compartilham as suas dores. De outro lado, pela prece provoca-se o
arrependimento, desperta-se o desejo de fazer o necessário para se tornar
feliz. É nesse sentido que se pode abreviar a sua pena, se do seu lado ele
contribui com a sua boa vontade. Esse desejo de melhora, excitado pela prece,
atrai para o Espírito sofredor os Espíritos melhores que vêm esclarecê-lo,
consolá-lo e dar-lhe esperanças. Jesus orava pelas ovelhas transviadas. Com
isso vos mostrava que sereis culpados se nada fizerdes pelos que mais
necessitam.
665. Que pensar da opinião que rejeita a prece pelos mortos, por não estar
prescrita nos Evangelhos?
-- O Cristo disse aos homens: amai-vos uns aos outros. Essa recomendação
implica também a de empregar todos os meios possíveis de testemunhar afeição
aos outros, sem entrar, entretanto, em nenhum detalhe sobre a maneira de
atingir o objetivo. Se é verdade que nada pode desviar o Criador de aplicar a
justiça, que é inerente a Ele mesmo, a todas as ações do Espírito, não é menos
verdade que a prece que lhe dirigis, em favor daquele que vos inspira afeição,
é para este um testemunho de recordação que não pode deixar de contribuir para
aliviar os seus sofrimentos e o consolar. Desde que ele revele o mais leve
arrependimento, e somente então, será socorrido: mas isso não o deixará
jamais esquecer que uma alma simpática se ocupou dele e lhe dará a doce crença
de que essa intercessão lhe foi útil. Disso resulta necessariamente, de sua
parte, um sentimento de afeição por aquele que lhe deu essa prova de interesse
e de piedade. Dessa maneira, o amor recomendado aos homens pelo Cristo
desenvolveu-se e aumentou entre eles, e ambos obedeceram à lei de amor e de
união de todos os seres, lei divina que deve conduzir à unidade, objetivo e fim
do Espírito[48].
666. Podemos orar aos Espíritos?
-- Podemos orar aos bons Espíritos, como sendo os mensageiros de Deus e os
executores de seus desígnios, mas o seu poder está na razão da sua
superioridade e decorre sempre do Senhor de todas as coisas, sem cuja permissão
nada se faz; eis porque as preces que lhes dirigimos só são eficazes se forem
agradáveis a Deus.
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