| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 4, CAP. 2 |
1.010-a. Então a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina a doutrina
da reencarnação?
-- Isso é evidente. Essa doutrina é a conseqüência de muitas coisas que
passaram despercebidas e que não se tardará a compreender nesse sentido; dentro
em pouco se reconhecerá que o Espiritismo ressalta a cada passo do próprio
texto das Escrituras Sagradas. Os Espíritos não vêm, portanto, subverter a
religião, como pretendem alguns, mas vêm, pelo contrário, confirmá-la,
sancioná-la através de provas irrecusáveis. E como é chegado o tempo de
substituir a linguagem figurada, falam em alegorias, dando às coisas um sentido
claro e preciso que não possa ser objeto de nenhuma falsa interpretação. Eis
porque dentro de algum tempo tereis mais pessoas sinceramente religiosas e
crentes do que as tendes hoje. SÃO LUÍS[68].
A Ciência demonstra a impossibilidade da ressurreição segundo a idéia vulgar. Se os despojos do corpo humano permanecessem homogêneos, embora dispersados e reduzidos a pó, ainda se conceberia a sua reunião em determinado tempo; mas as coisas não se passam assim. O corpo é formado por elementos diversos; oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, etc. Pela decomposição, esses elementos se dispersam, mas vão servir à formação de novos corpos, e isso de tal maneira que a mesma molécula, por exemplo, de carbono, entrará na composição de muitos milhares de corpos diferentes (não falamos senão dos corpos humanos, sem contar os dos animais). Dessa maneira um indivíduo pode ter em seu corpo moléculas que pertenceram aos homens dos primeiros tempos. E essas mesmas moléculas orgânicas que absorveis nos vossos alimentos provêm talvez do corpo de um indivíduo que conhecestes, e assim por diante. Sendo a matéria de quantidade definida e suas transformações em número indefinido, como poderia cada um desses corpos reconstituir-se com os seus mesmos elementos? Há nisso uma impossibilidade material. Não se pode portanto racionalmente admitir a ressurreição da carne, senão como uma figura simbolizando o fenômeno da reencarnação. E então nada há que choque a razão, nada que esteja em contradição com os dados da Ciência.É verdade que segundo o dogma essa ressurreição não deve ocorrer senão no fim dos tempos, enquanto segundo a doutrina espírita ocorre todos os dias. Mas não há também nesse quadro do julgamento final uma grande e bela figura que oculta, sob o véu da alegoria, uma dessas verdades imutáveis que os céticos não rejeitarão quando forem reconduzidas à verdadeira significação? Que se medite bem a teoria espírita sobre o futuro das almas e sobre a sua sorte, em conseqüência das diferentes provas que devem sofrer, e se verá que, com exceção da simultaneidade, o julgamento em que são condenadas ou absolvidas não é uma ficção, como pensam os incrédulos. Consideremos ainda que ela é o corolário natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida, enquanto, segundo a doutrina do julgamento final, a Terra é considerada como o único mundo habitado[69].
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