| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 2, CAP. 1 |
115. Uns Espíritos foram criados bons e outros maus?
-- Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, ou seja, sem
conhecimento. Deu a cada um deles uma missão, com o fim de os esclarecer e
progressivamente conduzir a perfeição, pelo conhecimento da verdade e para os
aproximar Dele. A felicidade eterna e sem perturbações, eles a encontrarão
nessa perfeição. Os Espíritos adquirem o conhecimento passando pelas provas que
Deus lhes impõe. Uns aceitam essas provas com submissão e chegam mais
prontamente ao seu destino; outros não conseguem sofrê-las sem lamentação, e
assim permanecem, por sua culpa, distanciados da perfeição e da felicidade
prometida.
115-a. Segundo isto, os Espíritos, na sua origem, se assemelhariam a crianças,
ignorantes e sem experiência, mas adquirindo pouco a pouco os conhecimentos que
lhes faltam, ao percorrer as diferentes fases da vida?
-- Sim, a comparação é justa: a criança rebelde permanece ignorante e
imperfeita; seu menor ou maior aproveitamento depende da sua docilidade. Mas a
vida do homem tem fim, enquanto a dos Espíritos se estende ao infinito.
116. Há Espíritos que ficarão perpetuamente nas classes inferiores?
-- Não; todos se tornarão perfeitos. Eles mudam, embora devagar, porque,
como já dissemos uma vez, um pai justo e misericordioso não pode banir
eternamente os seus filhos. Querias que Deus, tão grande, tão justo e tão bom,
fosse pior que vós mesmos?
117. Depende dos Espíritos apressar o seu avanço para a perfeição?
-- Certamente. Eles chegam mais ou menos rapidamente, segundo o seu desejo
e a sua submissão à vontade de Deus. Uma criança dócil não se instrui mais
depressa que uma rebelde?
118. Os Espíritos podem degenerar?
-- Não. A medida que avançam, compreendem o que os afasta da perfeição.
Quando o Espírito conclui uma prova, adquiriu conhecimento e não mais o perde.
Pode permanecer estacionado, mas não retrogradar.
119. Deus pode livrar os Espíritos das provas que devem sofrer para chegar a
primeira ordem?
-- Se eles tivessem sido criados perfeitos, não teriam merecimento para
gozar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o mérito, sem a luta? De
outro lado, a desigualdade existente entre eles é necessária a sua
personalidade, e a missão que lhes cabe, nos diferentes graus, está nos
desígnios da Providência, com vistas a harmonia do Universo.
Como, na vida social, todos os homens podem chegar aos primeiros postos, também poderíamos perguntar por que motivo o soberano de um país não faz, de cada um dos seus soldados um general; por que todos os empregados subalternos não são superiores; por que todos os alunos não são professores. Ora, entre a vida social e a espiritual existe ainda a diferença de que a primeira é limitada e nem sempre permite a escalada de todos os seus degraus, enquanto a segunda é indefinida e deixa a cada um a possibilidade de se elevar ao posto supremo.120. Todos os Espíritos passam pela fieira do mal, para chegar ao bem?
121. Por que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem, e outros o do mal?
-- Não tem eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os
simples e ignorantes, ou seja, tão aptos para o bem quanto para o mal; os que
são maus, assim se tornaram por sua vontade.
122. Como podem os Espíritos, em sua origem, quando ainda não têm a consciência
de si mesmos, ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal? Há neles um
princípio, uma tendência qualquer que os leve mais para um lado que para
outro?
-- O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire
consciência de si mesmo. Não haveria liberdade, se a escolha fosse provocada
por uma causa estranha a vontade do Espírito. A causa não está nele, mas no
exterior, nas influências a que ele cede em virtude de sua espontânea vontade.
Esta é a grande figura da queda do homem e do pecado original: uns cederam à
tentação e outros a resistiram.
122-a. De onde vêm as influências que se exercem sobre ele?
-- Dos Espíritos imperfeitos que procuram envolvê-lo e dominá-lo, e que
ficam felizes de o fazer sucumbir. Foi o que se quis representar na figura de
Satanás.
122-b. Esta influência só se exerce sobre o Espírito na sua origem?
-- Segue-o na vida de Espírito, até que ele tenha de tal maneira adquirido
o domínio de si mesmo, que os maus desistam de obsidiá-lo.
123. Por que Deus permitiu que os Espíritos pudessem seguir o caminho do
mal?
-- Como ousais pedir a Deus conta dos seus atos? Pensais poder penetrar os
seus desígnios? Entretanto, podeis dizer: A sabedoria de Deus se encontra na
liberdade de escolha que concede a cada um, porque assim cada um tem o mérito
de suas obras.
124. Havendo Espíritos que, desde o princípio, seguem o caminho do bem
absoluto, e outros o do mal absoluto, haverá gradações, sem dúvida, entre esses
dois extremos?
-- Sim, por certo, e constituem a grande maioria.
125. Os Espíritos que seguiram o caminho do mal poderão chegar ao mesmo grau de
superioridade que os outros?
-- Sim, mas as eternidades serão mais longas para eles.
Por essa expressão, as eternidades, devemos entender a idéia que os Espíritos inferiores fazem da perpetuidade dos seus sofrimentos, cujo termo não lhes é dado ver. Essa idéia se renova em todas as provas nas quais sucumbem.126. Os Espíritos que chegam ao supremo grau, depois de passarem pelo mal, têm menos mérito que os outros, aos olhos de Deus?
127. Os Espíritos são criados iguais quanto as faculdades intelectuais?
-- São criados iguais, mas não sabendo de onde vêm, é necessário que o
livre-arbítrio se desenvolva. Progridem mais ou menos rapidamente, tanto em
inteligência como em moralidade.
Os Espíritos que seguem desde o princípio o caminho do bem, nem por isso são Espíritos perfeitos; se não têm mais tendências, não estão menos obrigados a adquirir a experiência e os conhecimentos necessários à perfeição. Podemos compará-los a crianças que, qualquer que seja a bondade dos seus instintos naturais, têm necessidade de desenvolver-se, de esclarecer-se, e não chegam sem transição da infância à maturidade. Assim como temos homens que são bons e outros que são maus, desde a infância, há Espíritos que são bons ou maus, desde o princípio, com a diferença capital de que a criança traz os seus instintos formados, enquanto o Espírito, na sua formação, não possui mais maldade que bondade. Ele tem todas as tendências, e toma uma direção ou outra em virtude do seu livre-arbítrio.
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